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Amarilis nunca acreditou em Papai Noel. Ela nunca precisou acreditar. Ela tinha o vovô, e ele bastava.
Mais ou menos no meio de dezembro ele pegava os netos e levava pro shopping, pra que todos escolhessem os presentes de Natal. Ele era generoso. Podia dar aos netos o que não pôde oferecer aos filhos. Então, para Amarilis e os irmãos só bastava escolher.
A mãe tentava impor respeito, fazer os filhos entenderem que não deveriam abusar da boa vontade do avô. Dos irmãos de Amarilis, só a Lu saía da regra. Mas o vovô não ligava. Queria era ver os netos felizes.
Em dezembro, com todo mundo reunido em casa, uma hora era sagrada. Era quando o vovô chamava os netos pra irem naquele quarto, onde ficavam os brinquedos comprados para o Natal. "Olha só o que o vovô vai dar pra você", dizia ele, segurando as caixas e apontando bonecas, carrinhos, playmobil e outros brinquedos.
O vovô era um homem feliz. E espalhava felicidade onde fosse. Em casa, no escritório onde ainda tentava trabalhar, na rua, com os amigos, com a família. Ele ficava tão ansioso por ver os netos felizes que baixou um Ato Institucional. Lá na casa dele, as crianças ganhavam presentes de Natal no dia 24 de dezembro, logo que acordavam. Era felicidade pra criançada e alegria pro vovô, vendo todos eles se deliciarem com os presentes, comprados há mais de um mês.
À medida que o tempo passava, evoluíam os presentes. O vovô foi a primeira pessoa a incentivar Amarilis a soltar sua veia criativa. Deu a ela uma máquina de escrever portátil Olivetti. E os cadernos de textos, que depois foram rasgados (não foi Amarilis quem rasgou).
Um dia - Amarilis tinha 15 anos - aconteceu. Sua mãe veio chamá-la na escola. Chorando. Ela só disse: "Vovô morreu". Foi suficiente pra Amarilis entender que junto com ele ia embora o Natal, a alegria dos finais de ano, as nozes e castanhas quebradas só por prazer, e não pra comer. E foi embora toda estabilidade que ele trazia para a mãe de Amarilis.
Hoje, Amarilis tem a lembrança do vovô e do tempo em que viveram juntos. Sente saudade, mas já não chora por causa disso. O vovô não gostava de ninguém triste. Mas ficar feliz no Natal é praticamente impossível.
criado por Lile
06:59:53