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Amarilis tinha sete anos quando começou a estudar na segunda série. Era uma garotinha insuportável. Só porque aprendeu a ler bem cedo e estava adiantada um ano em relação aos colegas da mesma idade. Na primeira série, ela era o xodozinho da professora, só porque já tinha uma leitura fluente, diferente dos outros 29 alunos da mesma classe.
Logo no primeiro dia da segunda série, a professora de nome esquisito entregou uma folha com desenhos mimeografados pra cada aluno. Era pra eles desenvolverem uma história com patinhos, uma toneira e uma bacia. Feliz da vida, Amarilis escreveu.
Uma semana depois, a professora de nome estranho levou as redações corrigidas. Começou a ler uma, segundo ela, a pior de todas as da sala. Amarilis deu um sorriso triunfal... esses garotos bobos que nem sabiam ler saberiam escrever?
"Olhe só: 'Os patinhos pegaram a bacia, colocaram água na bacia e foram brincar com a bacia'!!!! Três bacias na mesma frase! Estou lendo pra vocês verem como é ruim escutar isso. Depois, vou conversar com o autor dessa redação, vamos ter de estudar muito", disse a professora.
Ao receber o seu texto, Amarilis viu que era o que a professora tinha lido, em voz alta, pra todo mundo ver como estava ruim. Ela corou. A vergonha calou fundo aquele desprezo pelos que ainda não liam direito. Foi conversar com a professora no final da aula e prometeu que ia estudar muito pra melhorar na escrita.
No final do bimestre, a mãe de Amarilis foi à escola, para a reunião dos pais e mestres. E a professora foi só elogios: "Sua filha melhorou muito nas redações. Nem parece que é a mesma aluna. Está de parabéns".
A mãe de Amarilis, toda feliz, contou para a filha. Mas desta vez, Amarilis não se orgulhou. Tinha aprendido a lição.

criado por Lile
07:44:23Amarilis nunca acreditou em Papai Noel. Ela nunca precisou acreditar. Ela tinha o vovô, e ele bastava.
Mais ou menos no meio de dezembro ele pegava os netos e levava pro shopping, pra que todos escolhessem os presentes de Natal. Ele era generoso. Podia dar aos netos o que não pôde oferecer aos filhos. Então, para Amarilis e os irmãos só bastava escolher.
A mãe tentava impor respeito, fazer os filhos entenderem que não deveriam abusar da boa vontade do avô. Dos irmãos de Amarilis, só a Lu saía da regra. Mas o vovô não ligava. Queria era ver os netos felizes.
Em dezembro, com todo mundo reunido em casa, uma hora era sagrada. Era quando o vovô chamava os netos pra irem naquele quarto, onde ficavam os brinquedos comprados para o Natal. "Olha só o que o vovô vai dar pra você", dizia ele, segurando as caixas e apontando bonecas, carrinhos, playmobil e outros brinquedos.
O vovô era um homem feliz. E espalhava felicidade onde fosse. Em casa, no escritório onde ainda tentava trabalhar, na rua, com os amigos, com a família. Ele ficava tão ansioso por ver os netos felizes que baixou um Ato Institucional. Lá na casa dele, as crianças ganhavam presentes de Natal no dia 24 de dezembro, logo que acordavam. Era felicidade pra criançada e alegria pro vovô, vendo todos eles se deliciarem com os presentes, comprados há mais de um mês.
À medida que o tempo passava, evoluíam os presentes. O vovô foi a primeira pessoa a incentivar Amarilis a soltar sua veia criativa. Deu a ela uma máquina de escrever portátil Olivetti. E os cadernos de textos, que depois foram rasgados (não foi Amarilis quem rasgou).
Um dia - Amarilis tinha 15 anos - aconteceu. Sua mãe veio chamá-la na escola. Chorando. Ela só disse: "Vovô morreu". Foi suficiente pra Amarilis entender que junto com ele ia embora o Natal, a alegria dos finais de ano, as nozes e castanhas quebradas só por prazer, e não pra comer. E foi embora toda estabilidade que ele trazia para a mãe de Amarilis.
Hoje, Amarilis tem a lembrança do vovô e do tempo em que viveram juntos. Sente saudade, mas já não chora por causa disso. O vovô não gostava de ninguém triste. Mas ficar feliz no Natal é praticamente impossível.

criado por Lile
06:59:53Todo mundo tem uma missão na vida. A mãe de Amarilis tem duas. Uma é conviver pelo resto da vida com o marido. A outra é povoar o mundo.
Primeiro, nasceu a Lu e foi um mega desastre.
Depois, nasceu Amarilis, e foi um desastrinho.
O terceiro foi o Danilo, e foi uma espécie de redenção.
O quarto foi o Olavo, e não foi nem bom nem ruim.
O quinto foi o Mateus. O mais esperto de todos. Ele conseguiu dispensa antes mesmo de nascer.
Aí a mãe de Amarilis resolveu que já tinha cumprido muito bem a sua missão número 2. Foi uma decisão sábia. E feliz.

criado por Lile
06:27:53
criado por Lile
06:44:56