Abacate Batido

Colcha de retalhos

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Terra Blog

Categoria: Surreal mundo estranho

18.12.07

Top 5 da semana antes do Natal

1 - Ir pra BH e ver a cidade, que sempre é bacana, virar um caos, seja no centro, seja nos shoppings ou na Savassi. Quer um conselho? Faça as compras de Natal durante o mês de janeiro. Bem mais tranqüilo.

2 - Briga homérica com o namorado. Me fez repensar um monte de coisas. Até onde eu tenho de aceitar qualquer coisa que ele faça só porque ele diz que neste ponto ele não vai mudar?

3 - Receber aquele monte de cartões virtuais de Natal. Dá uma preguiça enorme. Mas agora, tô me vingando. Quem me mandar um cartão, recebe um de volta. Lotou minha caixa? Loto a sua também.

4 - Pensar na ceia e no almoço de Natal para duas pessoas e uma cachorra. A parte legal é que a cachorra come ração, então é um problema a menos. Chester, peru, pernil, frango defumado? Pra duas pessoas que não curtem tanto assim um almoço? É demais. Acho que vai rolar café com biscoitos caseiros!

5 - Não ter nada pra fazer da tarde de 21/12 até 25/12. Arrumei uma solução alugando as três temporadas de LOST.

  • criado por  Lile criado por Lile
  • Postado em 06:45:10

27.11.07

Eu surtei, tu surtaste, ela surtou

A primeira manifestação de uma doença mental veio ainda na infância, mas ninguém percebeu. Veio em forma de descontrole financeiro. Todos tinham direito a uma grana por semana. Secretamente, ela ganhava mais. Ninguém podia saber. Esse mais dava pra chocolates no lanche da escola, canetas bonitinhas e cheias de frufrus e quilos de papéis de carta. Um dia, a fonte de grana extra morreu, mas não fez muita diferença, ela continuou gastando o que tinha e o que não tinha.

Quando ela começou a trabalhar, a grana a mais se materializou em calcinhas e sutiãs de todas as formas e jeitos. Sempre gastanto, sempre sem controle.

** O médico falou que descontrole com dinheiro é um sintoma caraterístico do transtorno bipolar.

O descontrole aumentava, mas sempre tinha alguém pra cobrir. Até quando ela deu o cano na faculdade (não me perguntem o que ela fez com o dinheiro, até hoje eu não sei) e foi descoberta. A família arquitetou um plano pra que ela fizesse o pagamento adequado. E não é que ela burlou o sistema e conseguiu uma "doação" de uma pessoa da família, bondosa, caridosa e que achava muito cruel a forma como a garota foi tratada nesse caso?

Outro sintoma é um certo descontrole amoroso. Na verdade, um apelo sexual muito forte. Tudo é sensual, tudo vira sensualidade. Todos a olham, todos a desejam. Qualquer homem que se aproximasse sendo gentil, virava alvo. Aí, ela se apaixonava por uma pessoa bacana. E depois descobria que ele já tinha namorada, era casado, não queria nada com ela. E sofria. E chorava. E jurava se corrigir.

Ninguém da família suspeitava que isso não era normal. Pessoas têm desilusões amorosas, algumas vezes se entregam demais. E sofrem.

Explosão também é um sintoma. Nas horas de raiva, ela era a mais forte. Batia, quebrava coisa, fazia escândalo. Ainda tenho algumas marcas no corpo que a fúria dela produziu. Entre tapas, socos, pontapés e coisas quebradas, a família achava que ela era assim porque puxou o pai, um tanto violento.

Certeza, mesmo, que algo estava errado só aconteceu há alguns anos, quando ela começou a ouvir vozes. E a conversar com elas. A gritar com elas no meio da rua.

Como lidar com alguém assim? Falar que é alucinação? Por trás das vozes, havia uma história. O dono das vozes tinha um aparelho super moderno, capaz de conversar com ela, de vê-la onde quer que ela estivesse. A voz ameaçava. Ria, zombava, mas também fazia elogios. A voz a pegou, pelo bolso, seu primeiro sintoma, e pelo sexo, a segunda manifestação. Ao mesmo tempo que reprimia, amava. E ela gritava e extravassava a dor em atos violentos. Mais portas batidas, mais gritos, mais coisas quebradas.

Como agir? O que fazer? Enquanto ela surtava, fomos aprendendo que há mais diferenças no mundo do que as que podemos suportar. Que há mais formas de tolerância que as habituais. Que não nascemos preparados pra lidar com nada disso. Que possivelmente não vamos aprender.

O surto dela, o tratamento, os remédios, as brigas acabaram virando um aprendizado em conjunto. Eu sofri junto, praticamente surtei junto. Ainda não consigo lidar com isso. Ainda não consigo aceitar coisa que vem com a justificativa "ah, ela age assim por causa do transtorno". Sei que um dia a responsabilidade pelos atos dela será minha. Espero que esse dia demore muito a chegar. Ainda não estou preparada pra isso.

Para saber mais: Livro "Não Sou uma Só: o Diário de uma Bipolar", de MARINA W.

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-

Ah, apaixonei com Gramado e Canela. Depois posto umas fotos de lá. Super lindo.

  • criado por  Lile criado por Lile
  • Postado em 06:40:45

13.11.07

Os hikikomori e a vida reclusa



Uma reportagem na Veja desta semana me chamou a atenção. É sobre os hikikomori, pessoas que, de uma hora para outra, resolveram largar a vida e morar dentro do quarto, sem sair de lá por anos e anos. A reportagem aponta que uma provável causa pra isso é a cultura japonesa, que não aceita derrotas.

Isso me lembrou um caso conhecido. Um cara que, aos 16 anos, foi intimado pelo chefe a cortar o cabelo. Depois dessa dura ele decidiu não sair mais de casa. Largou o trabalho, a escola, a vida. Ficou recluso no quarto. Durante quase 40 anos.

Como ele vivia só com sua mãe, ela cuidava de tudo. Comida, roupa... A ele não faltava nada, até porque ele só precisava mesmo do teto e de alimentos e roupas. Mas um dia, a mãe dele passou mal. Ele não teve alternativa, a não ser sair de casa. Conseguiu um táxi e mandou a mãe para o hospital. De lá, ela foi direto para uma casa de cuidados com idosos. Não podia mais ficar sozinha, e o filho não aceitaria enfermeiras em casa. Sem a mãe, ele não tinha que lhe desse comidas nem roupas.

É mais ou menos aí que a minha história e a dele se cruzaram. Esse cara é meu primo. A mãe dele foi criada pela minha bisavó, como irmã da minha avó. Foi a vovó quem assumiu os cuidados com o José. Ela foi até lá e combinou com ele como fariam com a comida: todo dia ele caminhava até a casa da vovó para buscar comida. Ela também providenciaria lenha para o fogão, roupas e o que mais fosse necessário. E assim, foram se passando os anos. A mãe dele morreu e ele continuou indo lá em casa, todo dia, buscar comida.

Ano passado, ele falhou. Preocupada, vovó foi à casa dele e o encontrou passando mal. Ele estava tendo uma crise de hipertensão. Foi para o hospital e, assim como sua mãe, ia precisar de acompanhamento o tempo todo. Acabamos conseguindo uma vaga para ele na mesma casa de idosos que sua mãe ficou. Mas ele não durou lá. Fez chantagem, greve de fome e voltamos com ele pra casa.

Daí, em março, ele ficou dois dias sem aparecer. Fomos à casa dele. Como sempre, portas e janelas fechadas, total reclusão. Chamamos, mas ele não abriu. Era assim, difícil conseguir entrar lá. Uma vizinha pulou o muro. Foi ela quem achou o corpo. Ele tinha tido um infarto durante a noite.

Fico me questionando por que, assim como os hikikomori, há pessoas que abandonam a vida para uma reclusão às vezes sem sentido. Até dói pensar que a história do José poderia ter uma reescrita mais digna. Quando começou a reclusão, foi levado ao médico e diagnosticado como esquizofrênico. Mas ele não quis se tratar. Isso, na década de 60. Foram mais de 60 anos de uma vida sem retratos, sem fragmentos. Como uma história de uma página só, homogênea, enredo único.

Ele quase não falava. Pegava a sacola com pão e comida e dizia “obrigado”, bem baixinho. Mesmo assim, sinto falta dele. Da campainha que não toca mais todo dia na mesma hora. Da figura de barbas brancas e longas, da silhueta maltrapilha, que só aceitava roupas e sapatos bem velhinhos, em substituição aos seus farrapos. Uma vez, demos um tênis novo pra ele. Foi devolvido no dia seguinte. Então, demos para o cara que fazia uma obra lá em casa. Ele usou durante dois dias, durante o trabalho. O tênis ficou feio, sujo. Só assim o José aceitou.

  • criado por  Lile criado por Lile
  • Postado em 16:26:29

07.11.07

Medo, medo, medo

Eu tinha 8 anos. Estava voltando para a casa de carro. No banco de trás, como manda o figurino. Vovô estava dirigindo. Num cruzamento, ele olhou para o lado errado e foi. Do lado certo, veio um carro em velocidade.

Eu lembro do grito da minha mãe e de como ela jogou meu irmão mais novo pra longe (ele dormia no colo dela e teria sido atingido se ela não tivesse feito isso). Eu lembro do joelho da vovó, todo cheio de caquinhos de vidro. Eu lembro do outro carro vindo, vindo, do vidro quebrando e voando no meu rosto. Eu lembro que não tive nem um arranhão.

Depois disso, lembro de estar no carro todas as vezes em que minha mãe bateu. E também em todos os caminhos de blitzem quando ela ainda não tinha carteira, mas levava a gente pra escola e pra natação no fusquinha. Também, quando o carro quebrou na estrada e ninguém parou pra ajudar. Com um vizinho meio zureta que fez tanta loucura na estrada que eu prefiri voltar de ônibus.

Eu já estava bem grandinha quando resolvi tirar a carteira de motorista. Foi até rápido: dois meses de aula e dois exames, pronto, lá estava eu, autorizada a pegar o carro a qualquer momento.

Mas eu não consegui. Só de pensar, começo a suar frio. Lembro daquele vidro quebrando. É como estalar os dedos e pronto, esqueço tudo: como ligar, arrancar, passar marchas, embreagem com freio, retrovisores.

Eu tenho medo de dirigir. Fala se isso não é estranho... Mais liberdade, que é uma das coisas que mais prezo no mundo, e eu bloqueio...

Alguém aí conhece um bom terapeuta?

 

  • criado por  Lile criado por Lile
  • Postado em 06:58:14

01.11.07

Desabafo ordináro

 

Hoje, vou fazer um desabafo. Um que sempre faço no dia 1º de novembro. Por isso ele é ordinário, comum.

Hoje meus pais fazem trinta e poucos anos de casados. E isso me deixa infinitament triste. Não entendo como eles consegue ainda estar juntos. Um destrói o outro. Um anula o outro. Eles fazem mal pra eles mesmos (Isso respinga nos filhos, claro, mas hoje é o que menos importa).

Hoje importa que duas pessoas que eu amava muito "acabaram acabando". E o pior é que os dois têm orgulho disso. Desses trinta e tantos anos juntos.

Hoje eu penso que todo mundo que me fala sobre minha mãe me descreve uma pessoa que eu não conheço. Como ela era alegre. Como ela era comunicativa. Como ela tinha amigo. Não conheço essa pessoa. Conheço a mulher que deixou os amigos de lado por causa dele. Que deixou de conversar com os outros por causa dele. Que deixou a alegria de lado por causa dele. E ELA SE ORGULHA DISSO.

Cara, como esse dia me deprime!

 

  • criado por  Lile criado por Lile
  • Postado em 06:33:36