Abacate Batido

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Terra Blog

Arquivo de: Novembro 2007

29.11.07

65 horas

categorias: Pra rir um tiquim

Minha viagem pra Canela e Gramado foi muito bacana. Mas nunca mais se repetirá, pelo menos da forma como foi. Na inscrição constava 25 horas de viagem da minha cidade até o hotel, em Canela. Foi um trote. Eu estava preparada pras 25 horas. Não pra 32 horas de ida e 33 de volta. Nunca mais vou pro sul de ônibus!

Mas mesmo o ônibus teve algumas vantagens. Eram só pessoas conhecidas, então não foi preciso preocupar com assaltos lá dentro. Era um ônibus leito pra 32 lugares e a comitiva tinha 17 pessoas. Todos eram bem divertidos, e as horas coletivas foram até agradáveis, não fosse aquele incômodo de passar tanto tempo dentro de um ônibus.

Claro, teve a chata, que implicou com todo mundo o tempo todo. Teve o bobão, que fez tanta bagunça no truco (a mesa de jogos foi muito bem utilizada), aquela empresária super séria que se revelou uma brincalhona de primeira e muitos momentos marcantes. Como o motorista de outra viação que entrou no nosso ônibus em Registro (SP) pra pedir dinheiro pro remédio da filha; um dos motoristas que parou em Itapema (SC) pra ver a mãe - eles não se viam há um ano; a moça que comprou um abajour no meio da estrada - ele veio confortável em duas poltronas durante toda a viagem; a guia da viagem, já em Canela, super sem-graça e a cerveja sem álcool da família do Recanto dos Pioneiros, que frustrou todo mundo.

O mais engraçado foi quando, em Gramado, fomos a um rodízio de fondue. Eu amo fondue. Conseguimos um restaurante bacana, um preço super em conta e fomos. Mas teve um que não gostou. Saiu indignado do restaurante. Ele achou um absurdo pagar pra entrar e ainda ter de cozinhar a própria comida. Vê se pode! "A gente paga é pra aprender. Esse tal de fondí, nunca mais", bradou aos quatro ventos.

 

  • criado por  Lile criado por Lile
  • Postado em 06:41:01

27.11.07

Eu surtei, tu surtaste, ela surtou

A primeira manifestação de uma doença mental veio ainda na infância, mas ninguém percebeu. Veio em forma de descontrole financeiro. Todos tinham direito a uma grana por semana. Secretamente, ela ganhava mais. Ninguém podia saber. Esse mais dava pra chocolates no lanche da escola, canetas bonitinhas e cheias de frufrus e quilos de papéis de carta. Um dia, a fonte de grana extra morreu, mas não fez muita diferença, ela continuou gastando o que tinha e o que não tinha.

Quando ela começou a trabalhar, a grana a mais se materializou em calcinhas e sutiãs de todas as formas e jeitos. Sempre gastanto, sempre sem controle.

** O médico falou que descontrole com dinheiro é um sintoma caraterístico do transtorno bipolar.

O descontrole aumentava, mas sempre tinha alguém pra cobrir. Até quando ela deu o cano na faculdade (não me perguntem o que ela fez com o dinheiro, até hoje eu não sei) e foi descoberta. A família arquitetou um plano pra que ela fizesse o pagamento adequado. E não é que ela burlou o sistema e conseguiu uma "doação" de uma pessoa da família, bondosa, caridosa e que achava muito cruel a forma como a garota foi tratada nesse caso?

Outro sintoma é um certo descontrole amoroso. Na verdade, um apelo sexual muito forte. Tudo é sensual, tudo vira sensualidade. Todos a olham, todos a desejam. Qualquer homem que se aproximasse sendo gentil, virava alvo. Aí, ela se apaixonava por uma pessoa bacana. E depois descobria que ele já tinha namorada, era casado, não queria nada com ela. E sofria. E chorava. E jurava se corrigir.

Ninguém da família suspeitava que isso não era normal. Pessoas têm desilusões amorosas, algumas vezes se entregam demais. E sofrem.

Explosão também é um sintoma. Nas horas de raiva, ela era a mais forte. Batia, quebrava coisa, fazia escândalo. Ainda tenho algumas marcas no corpo que a fúria dela produziu. Entre tapas, socos, pontapés e coisas quebradas, a família achava que ela era assim porque puxou o pai, um tanto violento.

Certeza, mesmo, que algo estava errado só aconteceu há alguns anos, quando ela começou a ouvir vozes. E a conversar com elas. A gritar com elas no meio da rua.

Como lidar com alguém assim? Falar que é alucinação? Por trás das vozes, havia uma história. O dono das vozes tinha um aparelho super moderno, capaz de conversar com ela, de vê-la onde quer que ela estivesse. A voz ameaçava. Ria, zombava, mas também fazia elogios. A voz a pegou, pelo bolso, seu primeiro sintoma, e pelo sexo, a segunda manifestação. Ao mesmo tempo que reprimia, amava. E ela gritava e extravassava a dor em atos violentos. Mais portas batidas, mais gritos, mais coisas quebradas.

Como agir? O que fazer? Enquanto ela surtava, fomos aprendendo que há mais diferenças no mundo do que as que podemos suportar. Que há mais formas de tolerância que as habituais. Que não nascemos preparados pra lidar com nada disso. Que possivelmente não vamos aprender.

O surto dela, o tratamento, os remédios, as brigas acabaram virando um aprendizado em conjunto. Eu sofri junto, praticamente surtei junto. Ainda não consigo lidar com isso. Ainda não consigo aceitar coisa que vem com a justificativa "ah, ela age assim por causa do transtorno". Sei que um dia a responsabilidade pelos atos dela será minha. Espero que esse dia demore muito a chegar. Ainda não estou preparada pra isso.

Para saber mais: Livro "Não Sou uma Só: o Diário de uma Bipolar", de MARINA W.

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-

Ah, apaixonei com Gramado e Canela. Depois posto umas fotos de lá. Super lindo.

  • criado por  Lile criado por Lile
  • Postado em 06:40:45

20.11.07

Post de Natal

categorias: Pra rir um tiquim

É, eu sei que estou me adiantando. Mas lembrei dessa história agora. E tenho certeza que vou esquecer no Natal. Então, lá vai.

Vovó foi criada em fazenda. Por isso, e por ter nascido em 1918, ela tem um jeito bem peculiar de lidar com as empregadas que teve.

Há três anos, ela pediu à moça-que-trabalha-lá-em-casa pra vir no dia 25 de dezembro, de manhã, pra fazer o almoço.

- Vó, isso é sacanagem, coitada dela! Tem a festa na casa dela também, e Natal não é dia de trabalhar!

- Mas não temos nada em casa, só pra fazer, aí ela vem e faz.

- Não, vamos num restaurante qualquer.

- Tudo bem.

Impaciente como só uma senhorinha de fazenda, ao meio-dia de 25 de dezembro, vovó já estava aflita com o almoço.

- Vamos logo.

Fomos. Éramos ela, eu, namorado, irmã e amiga da irmã. Restaurante mais próximo: fechado. Mais longe um pouco: fechado. Todos num raio de 1 km: fechado. Vovó desesperou.

- Calma, Vó. Vamos achar uma padaria aberta, um supermercado, aí a gente compra um congelado qualquer.

De carro, fomos até o final da cidade. Todos os restaurantes, super-mercados, mercados, quitandas e biroscas fechadas. Padaria... nem sinal.

Vovó tava quase arrancando os cabelos grisalhos da cabeça.

Achamos uma padariazinha. Não tinha nenhum congelado. Mas tinha pão de sal, pão de forma e miojo. Já em casa, cada um fez o seu miojo à sua moda (o meu, com muito requeijão cremoso). Vovó já estava mais calma porque, bem ou mal, todo mundo estava alimentado. A partir deste ano, entramos na era do Chester.

Juro que foi o almoço de Natal mais divertido de toda a minha vida.

 -.-.-.-.-.-.-.-.-.-.

Estou indo hoje para Canela, no Rio Grande do Sul. Friozinho na barriga total. Não sei como vai ser meu acesso à net lá. Se der, posto alguma coisa. Se não, mando um postal. Volto na próxima semana.

Bjo pra todos.

  • criado por  Lile criado por Lile
  • Postado em 06:47:52

14.11.07

Familiaê, familiaá, família

Todo mundo tem uma missão na vida. A mãe de Amarilis tem duas. Uma é conviver pelo resto da vida com o marido. A outra é povoar o mundo.

Primeiro, nasceu a Lu e foi um mega desastre.

Depois, nasceu Amarilis, e foi um desastrinho.

O terceiro foi o Danilo, e foi uma espécie de redenção.

O quarto foi o Olavo, e não foi nem bom nem ruim.

O quinto foi o Mateus. O mais esperto de todos. Ele conseguiu dispensa antes mesmo de nascer.

Aí a mãe de Amarilis resolveu que já tinha cumprido muito bem a sua missão número 2. Foi uma decisão sábia. E feliz.

  • criado por  Lile criado por Lile
  • Postado em 06:27:53

13.11.07

Os hikikomori e a vida reclusa



Uma reportagem na Veja desta semana me chamou a atenção. É sobre os hikikomori, pessoas que, de uma hora para outra, resolveram largar a vida e morar dentro do quarto, sem sair de lá por anos e anos. A reportagem aponta que uma provável causa pra isso é a cultura japonesa, que não aceita derrotas.

Isso me lembrou um caso conhecido. Um cara que, aos 16 anos, foi intimado pelo chefe a cortar o cabelo. Depois dessa dura ele decidiu não sair mais de casa. Largou o trabalho, a escola, a vida. Ficou recluso no quarto. Durante quase 40 anos.

Como ele vivia só com sua mãe, ela cuidava de tudo. Comida, roupa... A ele não faltava nada, até porque ele só precisava mesmo do teto e de alimentos e roupas. Mas um dia, a mãe dele passou mal. Ele não teve alternativa, a não ser sair de casa. Conseguiu um táxi e mandou a mãe para o hospital. De lá, ela foi direto para uma casa de cuidados com idosos. Não podia mais ficar sozinha, e o filho não aceitaria enfermeiras em casa. Sem a mãe, ele não tinha que lhe desse comidas nem roupas.

É mais ou menos aí que a minha história e a dele se cruzaram. Esse cara é meu primo. A mãe dele foi criada pela minha bisavó, como irmã da minha avó. Foi a vovó quem assumiu os cuidados com o José. Ela foi até lá e combinou com ele como fariam com a comida: todo dia ele caminhava até a casa da vovó para buscar comida. Ela também providenciaria lenha para o fogão, roupas e o que mais fosse necessário. E assim, foram se passando os anos. A mãe dele morreu e ele continuou indo lá em casa, todo dia, buscar comida.

Ano passado, ele falhou. Preocupada, vovó foi à casa dele e o encontrou passando mal. Ele estava tendo uma crise de hipertensão. Foi para o hospital e, assim como sua mãe, ia precisar de acompanhamento o tempo todo. Acabamos conseguindo uma vaga para ele na mesma casa de idosos que sua mãe ficou. Mas ele não durou lá. Fez chantagem, greve de fome e voltamos com ele pra casa.

Daí, em março, ele ficou dois dias sem aparecer. Fomos à casa dele. Como sempre, portas e janelas fechadas, total reclusão. Chamamos, mas ele não abriu. Era assim, difícil conseguir entrar lá. Uma vizinha pulou o muro. Foi ela quem achou o corpo. Ele tinha tido um infarto durante a noite.

Fico me questionando por que, assim como os hikikomori, há pessoas que abandonam a vida para uma reclusão às vezes sem sentido. Até dói pensar que a história do José poderia ter uma reescrita mais digna. Quando começou a reclusão, foi levado ao médico e diagnosticado como esquizofrênico. Mas ele não quis se tratar. Isso, na década de 60. Foram mais de 60 anos de uma vida sem retratos, sem fragmentos. Como uma história de uma página só, homogênea, enredo único.

Ele quase não falava. Pegava a sacola com pão e comida e dizia “obrigado”, bem baixinho. Mesmo assim, sinto falta dele. Da campainha que não toca mais todo dia na mesma hora. Da figura de barbas brancas e longas, da silhueta maltrapilha, que só aceitava roupas e sapatos bem velhinhos, em substituição aos seus farrapos. Uma vez, demos um tênis novo pra ele. Foi devolvido no dia seguinte. Então, demos para o cara que fazia uma obra lá em casa. Ele usou durante dois dias, durante o trabalho. O tênis ficou feio, sujo. Só assim o José aceitou.

  • criado por  Lile criado por Lile
  • Postado em 16:26:29