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Terra Blog

Arquivo de: Outubro 2007

31.10.07

Conto 1

 

A amarílis (Hippeastrum hybridum.), também conhecida como açucena ou flor-da-imperatriz, é uma planta herbácea que se reproduz por meio da divisão de bulbos. Pertencente à família das Amarilidáceas, produz flores no verão. Necessita de sol pleno durante todo o dia ou pelo menos 4 horas de sol direto. Prefere clima ameno e regas moderadas, pois o solo encharcado pode provocar o apodrecimento dos bulbos. A mistura de solo ideal é: 1 parte de terra comum de jardim, 1 parte de terra vegetal e 2 de areia.

Amarilis nasceu menina. Nasceu flor, nasceu na primavera. Amarilis nasceu para corrigir um erro. Mas esta situação também estava errada e ela acabou piorando tudo. Carga muito pesada para uma menina-flor.

Amarilis é feliz, mesmo sendo o único nome esquisito da família. Pai, mãe e irmãos têm nomes normais. Mas Amarilis gosta da flor que também tem seu nome. E fica muito feliz por não se chamar Ernestina.


  • criado por  Lile criado por Lile
  • Postado em 06:42:46

26.10.07

Ele vende livros?

categorias: Entreouvido

Aqui na minha cidade tem um cara que vende livros. Ele é meio nômade, sai com sua caixa de livros de cidade em cidade, vem aqui algumas vezes. Arruma os livros num canto qualquer e fica lá esperando os compradores.

No começo, seus livros eram muito filosóficos. Ele dizia que só vendia livros inteligentes. Hoje, caiu no popular. Tá vendendo até best-sellers e auto-ajuda.

Um dia eu parei para olhar os livros. E, do nada, ele recitou Álvaro de Campos pra mim. Um poema que gosto muito.

Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.
(Trecho inicial de Lisbon revisited)

Eu disse pra ele que preferia Tabacaria.

Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas
(Trecho final de Tabacaria)

Aí ele me chamou de fatalista. Disse que eu estava errada e que a esquerda é que tinha razão. (Cá com meus botões, eu me perguntei; em que hora foi que falei de direita e de esquerda?). Ele disse ainda que eu tinha muito pra viver e que ia aprender ainda muitas coisas, e que era muito infantil da minha parte gostar de Tabacaria. Fui embora.

Outro dia, ele estava lá de novo. Meu irmão olhou um livro qualquer. O cara disse que meu irmão conquistava todo mundo só com o olhar, que todos - homem e mulheres - ficavam fascinados com ele. Meu irmão se assustou. Largou o livro e foi embora.

Ontem, passei por ele. Andei bem devagar na hora de passar perto. Ele estava conversando com uma mulher, explicando porque o livro O Segredo é um sucesso de vendas. E dizendo como o livro mudou a sua vida. Fiquei observando o jeito doce como ele conversava com ela. Claro, ela comprou o livro.

Acho esse cara muito curioso. Ele conversa com todo mundo, mas tem um jeito muito estranho de tratar quem se aproxima dos seus livros. É como, talvez, se quisesse não vender, mas fizesse isso só por necessidade. Acho que ele se apegou demais aos livros que não vendia, e hoje traz livros mais populares para poder fazer uma graninha, mas sem abrir mão de suas convicções. Ele ainda discute com quem diz que Charles Bukowski escreveu o mesmo livro um monte de vezes (é, eu disse isso e ele quase me matou), ou com quem diz que aquele livro do Gabriel García Marquez está caro demais. Mas hoje, entre Paulo Coelho e Quem Mexeu no Meu Queijo?, ele tem vendido mais. E tem sido mais freqüente aqui na cidade.

 

 

  • criado por  Lile criado por Lile
  • Postado em 07:25:01

23.10.07

Das promoções loucas

Sexta, hora de almoço:

- Boa tarde, senhora Lile. Quem fala é a Fulana, do banco X. Dentro de quinze dias a senhora vai estar recebendo o seu novo cartão, com mil vantagens e um crédito especial.

- Muito obrigada, mas eu não tenho interesse em cartão de crédito. (Pensei: ainda mais do banco X, que é o mais caro do universo).

- Obrigada pela atenção, senhora.

Segunda, 15h:

- Boa tarde, senhora Lile. Quem fala é a Fulana, do banco X. Dentro de quinze dias a senhora vai estar recebendo o seu novo cartão, com mil vantagens e um crédito especial.

- Muito obrigada, mas eu não tenho interesse em cartão de crédito. Além do mais, estou com o meu cartão na mão, ele tem validade até 2009. Por que vocês querem me mandar um cartão que eu não solicitei, com um crédito que eu não quero?

- Obrigada pela atenção, senhora Lile.

 

 

  • criado por  Lile criado por Lile
  • Postado em 08:11:16

Semana sem noção

Semana sem noção é essa minha.

- O começo foi na sexta, quando namorado resolveu ir pra casa da mãe dele. Foi embora no sábado, falou que voltava no domingo e só veio na segunda. Odiei;

- Cliente chato me ligou pelo menos 15 vezes na segunda. Quer porque quer que eu vá numa viagem com ele. Mesmo dizendo que não vou, ele não sai do meu pé;

- Três trabalhos pra fazer "pra ontem". Isso significa uma semana sem academia e sem comidas especiais de fim de tarde. Aliás, o que é fim de tarde?;

- Amigos sem noção fazendo coisas sem noção. Amigos sem noção do namorado fazendo coisas mais sem noção ainda. Onde foi que eu errei?;

- Próximo sábado, trabalho à tarde. Reunião sem noção. Não podia ser qualquer outro dia da semana? Tinha de ser sábado à tarde? E tinha de ser comigo?

Tem jeito da gente pular a segunda-feira todas as semanas?

  • criado por  Lile criado por Lile
  • Postado em 07:48:03

20.10.07

Notícia mais que triste

A notícia abaixo é triste. Triste porque mais do que um conflito religioso, envolve falta de conhecimento sobre a arte de nosso país. Envolve ignorância, falta de educação escolar. Ler isso me deixou indignada. E, mais que tudo, triste.

Ah, antes que digam alguma coisa, não estou questionanado religião nenhuma. Questiono o ato da queima de imagens que têm valor histórico inestimável. Obras catalogadas pelo Iphan e pertecentes a uma região que é Patrimônio Cultural da Humanidade.

Pastor queima imagens sacras do século 17 no RS (http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20071019/not_imp67191,0.php)
Ministro da Universal destruiu patrimônio histórico de Sete Povos de Missões durante culto

Wálmaro Paz, SÃO BORJA (RS)

O pastor da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) Fábio Guimarães da Silva Pereira queimou, durante um culto, duas imagens da história missioneira cadastradas no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Ele havia retirado as estátuas da casa de uma família que era fiel depositária das peças em troca de orações para curar um doente. O pastor responde por crime contra o patrimônio histórico na 3ª Vara Cível de São Borja, no Rio Grande do Sul.

Pereira alegou que a queima de imagens é uma pratica comum nos cultos da Universal. Mas garantiu não saber que as duas imagens, uma do Senhor Morto e outra de São Pedro, eram cadastradas no Iphan.

A denúncia ao Ministério Público foi feita pelo diretor de Assuntos Culturais do município, Fernando Rodrigues, no mês passado, quando a família Ayala Chagas resolveu fazer a doação para o museu municipal de oito imagens de madeira das quais era guardiã.

Na ocasião, Oraides Chagas informou Rodrigues de que o pastor havia levado as duas imagens. Orientado pelo Iphan, o diretor procurou a Polícia Federal e o Ministério Público, que representou contra o pastor.

São Borja é um dos Sete Povos das Missões, fundado em 1636 pelos jesuítas como uma redução de índios guaranis. Dessa época, restam apenas 82 peças no estilo barroco jesuítico, todas tombadas pelo Iphan. Dessas, 35 estão no Museu Municipal Aparício Silva Rillo, 13 encontram-se em poder da Igreja Católica e as outras 34 estão espalhadas por casas de família que já detinham a posse delas.

A família Ayala Chagas, moradora de um bairro pobre da cidade, conservava em seu poder oito imagens que foram salvas de um incêndio em uma capela próxima de sua casa na primeira metade do século passado. Oraides Chagas contou que havia cinco gerações eles vinham cuidando das estátuas em um pequeno oratório na sala da residência. Com a doença de seu marido, Leôncio Ayala Chagas, que sofria de câncer, Oraides recorreu às orações do pastor para curá-lo. Em troca, ele exigiu as estátuas para queimá-las em um culto.

Chagas morreu de câncer em julho e os filhos procuraram o museu para fazer a doação com o objetivo de salvar as outras estátuas.

 

  • criado por  Lile criado por Lile
  • Postado em 10:11:45